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domingo, 14 de junho de 2015
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Literatura Infantil: Os Três Porquinhos sob a ótica da psicanálise
Por Mônica Perny
O gosto de contar é
idêntico ao de escrever – e os primeiros narradores são os antepassados
anônimos de todos os escritores. O gosto de ouvir é como o gosto de ler.
Cecília Meirelles
1 - Apresentação
.
Este recorte versa sobre as relações que a Psicanálise estabelece com a Arte e em especial com a Literatura e tem como objetivo refletir os aspectos da teoria psicanalítica acerca da Literatura Infantil, tomando como base as seguintes questões: Qual o valor terapêutico dos contos para a criança em análise? Qual a função dos contos para o desenvolvimento psíquico do sujeito?
A pesquisa bibliográfica realizada à luz da psicanálise tem como referência a obra de Sigmund Freud, Bruno Bettelheim e de outros autores que de forma direta ou indireta tratam do tema.
2 - Introdução
Quando uma criança nasce inicia o seu ciclo de aprendizagem. Desde os primeiros dias ela aprende que para satisfazer suas necessidades necessita comunicar-se: primeiro com choro e gritos, depois com gestos e palavras e, por fim, com ações muitas vezes inconscientes.
A capacidade de simbolizar nasce com o ser humano e estrutura- se a partir de dois movimentos: conhecer o objeto e perder o objeto. Desde o nascimento a criança passa por momentos de perdas importantes: as castrações (umbilical, do desmame, a fálica). Estes processos vivenciados até os cinco anos são importantes para a formação semiótica e permitem a criança simbolizar o mundo.
Simbolizar é, portanto, sentir a perda. É olhar e substituir o objeto perdido por outro.
Os contos de fadas são histórias difundidas desde a Antiguidade. Sua origem é incerta, mas sempre presente na cultura oral em todos os continentes, que retrata um mundo fantástico, de sonhos, fadas, princesas e magias.
As histórias infantis contadas e recontadas no decorrer dos tempos, através da metáfora são capazes de apresentar os dramas e conflitos principais por meio do simbólico, assim,
Para regular os problemas psicológicos do crescimento (superar as decepções narcísicas, os dilemas edipianos, as rivalidades fraternas; ser capaz de renunciar às dependências da infância, afirmar sua personalidade, tomar consciência de seu próprio valor e de suas obrigações morais), a criança tem necessidade de compreender o que se passa em seu ser consciente, para fazer face igualmente ao que se passa em seu inconsciente (BETTELHEIM, 1980, p. 16).
3 - Literatura e Psicanálise
Na obra freudiana encontram-se muitos exemplos da interconexão entre Psicanálise e a Arte, mais especificamente a Literatura. Freud utiliza peças dramáticas como “Édipo-Rei”, de Sófocles e “Hamlet”, de Shakespeare, para articular questões pertinentes ao sujeito e à cultura. Em “O Estranho”, Freud (1919) utiliza “O Homem da Areia”, de Hoffmann, para falar do sentimento estranho, mas tão familiar do sujeito, e que lhe aparece como estranho, como um duplo. Freud, no texto “O tema dos três escrínios” (1913) faz uma interpretação de um tema muito comum nos contos de fadas, que é o da escolha entre três mulheres, que versa sobre uma escolha do destino.
O psicanalista Jacques Lacan também usou referências da literatura para explicar algumas questões que ele coloca, em sua releitura de Freud. No seminário sobre “A carta roubada”, conto traduzido por Baudelaire (Lacan, 1998) ele discorre a sua teorização acerca do significante, do significado que desliza sob a cadeia significante, das posições em que se colocam os sujeitos a partir da posse ou não da carta, do saber possuir, achar que possui e saber que o outro possui ou não, no percurso sob o significante que é a carta.
Para o psicanalista Bruno Bettelheim,
O prazer que experimentamos quando nos permitimos ser suscetíveis a um conto de fadas, o encantamento que sentimos não vêm do significado psicológico de um conto (embora isto contribua para tal) mas de suas qualidades literárias – o próprio conto como uma obra de arte. O conto de fadas não poderia ter seu impacto psicológico sobre a criança se não fosse antes de tudo uma obra de arte (BETTELHEIM, 1980, p. 20).
4 - A criança e a Psicanálise
Sigmund Freud revolucionou o pensamento a respeito da criança em vigor na época, com suas teorias sobre a dinâmica do inconsciente, a sexualidade infantil e o complexo de Édipo.
No texto “Escritores criativos e devaneios” (1908), Freud já discutia a relação entre as fantasias da criação poética e o brincar da criança.
Acaso não poderíamos dizer que, ao brincar, toda criança se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo próprio, ou melhor, reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade? (FREUD, 1908, p.135).
Assim, a criação literária, para Freud seria semelhante ao brincar infantil por sua na tentativa de reajustar o mundo. A criança, em seu brincar, se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo de fantasia que é levado a sério, “no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade.” (1908, p.135).
De acordo com Freud, o que preserva a relação entre o brincar infantil e a criação poética é a linguagem.
5 - O inconsciente e a linguagem
O sujeito da psicanálise é o sujeito do inconsciente enquanto manifestação única e singular.
O principal axioma de Lacan (1985, p.27), é:” o Inconsciente é estruturado como linguagem”, assim sendo, somos estruturados a partir da fala e da linguagem. Disso decorre que estamos sujeitos ao efeito do inconsciente, uma vez inseridos no mundo da linguagem, lidamos todo o tempo com palavras, com imagens e com símbolos que se articulam continuamente.
Sigmund Freud introduziu a técnica da associação livre na clinica psicanalítica em substituição ao método catártico. A técnica da livre associação tem como objetivo trazer para a mente inconsciente às memórias ou os pensamentos reprimidos, causadores do sintoma do paciente. Antes de utilizar a associação livre como técnica psicanalítica, Freud já havia lido a respeito do processo.
O autor, Ludwig Börne chamou a atenção de Freud, quando este ainda era adolescente. Segundo Freud, Börne, “fora primeiro autor em cujos escritos penetrara profundamente” (FREUD, 1920, p. 279). Ludwig Börne em 1823 escreveu “A Arte de Tornar-se um Escritor Original em Três Dias”. É um breve ensaio de apenas quatro páginas e meia, com o qual Freud veio a ter contato muitos anos depois. Ele termina o ensaio com o seguinte parágrafo:
E aqui temos a aplicação prática que foi prometida. Pegue algumas folhas de papel e por três dias a fio anote, sem falsidade ou hipocrisia, tudo o que lhe vier a cabeça. Escreva o que pensa de si mesmo, de sua mulher, da Guerra Turca, de Goethe, do julgamento de Fonk, do Juízo Final, de seus superiores e, quando os três dias houverem passados, ficará espantadíssimo pelos novos e inauditos pensamentos que teve. Esta é a arte de tornar-se um escritor original em três dias (BORNE, 1923 apud FREUD, 1920, p. 279).
6 - Contos: contar e recontar
Na leitura das obras de Freud observar-se que, a ideia de uma tendência à repetição sofre modificações teóricas no seu percurso, tornando-se um conceito de grande importância para a Psicanálise. Apesar de, o termo compulsão ter sido documentado numa carta ao médico alemão Wilheim Fliess em 1894, o conceito de compulsão à repetição aparece pela primeira vez na obra freudiana em Recordar, repetir e elaborar escrita em 1914 (ROUDINESCO & PLON, 1998).
O psicanalista francês Jacques Lacan (1963-1964) em O seminário, livro, 11 a considera como um dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
Desde os primeiros textos de Freud a ideia de uma tendência à repetição (Widerholung) liga-se à de compulsão (Zwang). A repetição funde-se ao funcionamento psíquico inconsciente.
Tanto na criança como no adulto, se o inconsciente é recalcado e nega-lhe passagem à consciência, a mente consciente do sujeito sofrerá intervenções de derivados desses elementos inconscientes, que tentarão a todo custo se tornar conscientes. Os contos de fadas escondem as questões inconscientes. Nesse sentido, o conto de fadas permite que a criança entre em contato com estes conteúdos que nem sempre são tocados por outras atividades.
Os contos de fadas apresentam “uma variação sobre o mesmo tema: o ser humano se buscando e buscando o sentido de sua vida” (BONAVENTURE, 2003, p. 19). Portanto os contos não relatam apenas histórias imaginárias, mas algo que se refere a nós mesmos. Assim, a criança é capaz de reconhecer qual história é significativa para sua necessidade momentânea e também é capaz de perceber onde a história lhe fornece uma forma de poder enfrentar e resolver um conflito interno. De acordo com Bettelheim,
Só escutando repetidamente um conto de fadas e sendo dado tempo e oportunidade para demorar-se nele, uma criança é capaz de aproveitar integralmente o que a estória tem a lhe oferecer com respeito à compreensão de si mesma e de sua experiência de mundo. Só então as associações livres da criança com a estória fornecem-lhe o significado mais pessoal e assim ajudam-na a lidar com problemas que a oprimem. (1980, p. 74).
Por esta razão a criança pede para ouvir a mesma história diversas vezes. A criança volta ao mesmo conto para ampliar seu significado ou substitui-lo por novos. Caso a história não seja repetida ou não for dado um tempo para a criança poder apreendê-la, algo ficará perdido.
Isto explica porque um conto pode ser favorito em um momento da infância, e depois de um tempo não ser tão apreciado. Quando a criança passa a querer ouvir outro conto, significa que ela já acomodou a mensagem trazida por ele e que este já cumpriu a sua função de ensinar.
7 - Contos de fadas, sonhos e fantasias
Na teoria freudiana o sonho visa realizar um desejo. A partir do momento em que alguns desejos não são satisfeitos o sujeito começa a fantasiar e a desejar.
Sob a ótica da psicanálise o sonho e a realidade têm uma estrutura idêntica:
O ser humano sonha continuamente, esteja dormindo ou acordado, sempre movido pela fantasia inconsciente que não apenas representa para ele a sua realidade como lhe fornece meios para se relacionar com seu mundo real (JORGE, 2010, p.223)
No universo infantil, as fantasias revelam-se através dos sonhos, das brincadeiras, da música, da arte, bem como através dos contos de fadas.
A obra freudiana mostra que os contos de fadas são similares aos sonhos e fantasias com uma linguagem simbólica idêntica. Segundo Bettelheim (1980, p.46) há diferenças bem significativas entre os sonhos e os contos de fadas.
Sonhos:
a satisfação dos desejos é disfarçada;
são resultado de pressões internas, que não encontram alivio, de problemas que bloqueiam uma pessoa, para as quais ela não conhece nenhuma solução e para as quais os sonhos não encontram nenhuma;
não é possível controlar o que se passa em nossos sonhos, embora a censura interna influencie o que podemos sonhar, este controle ocorre no nível inconsciente.
Contos de fadas:
a satisfação dos desejos é expressa abertamente
há uma projeção do alívio de todas as pressões internas que não encontram alívio e não só oferece formas de resolver os problemas, mas promete uma solução “feliz” para ele.
em grande parte resulta do conteúdo comum consciente e inconsciente tendo sido moldado pela mente consciente, não de uma pessoa especial, mas do consenso de várias a respeito do que consideram problemas humanos universais, e o que aceitam como soluções desejáveis.
Segundo Bettelheim (1980) não se deve analisar os sonhos das crianças em análise, pois: são muito simples; contém um conteúdo inconsciente que permanece praticamente não moldado pelo ego e ainda, porque as funções mentais mais elevadas mal entram na produção de seu sonho.
Assim a utilização dos contos são mais eficientes, uma vez que eles têm como função expor pela criança as suas fantasias que na maioria das vezes causam insegurança e medo. A criança ao falar dos personagens, pode falar abertamente de seus medos, desejos e fantasias, pois não está falando de si, não é a sua fala, mas a dos personagens.
8 – Os Três Porquinhos sob a ótica da psicanalise
“Os Três Porquinhos” é um conto da tradição inglesa. As primeiras edições do conto datam do século XVIII, mas, acredita-se que a história seja muito mais antiga. As fábulas, que são também contos populares, são transmitidas de geração a geração. Segundo Samuel Johnson, (apud BETTELHEIM, 1980, p. 54) "Uma fábula parece ser, no seu estado genuíno, uma narrativa na qual, seres irracionais, e algumas vezes inanimados, com a finalidade de dar instrução moral, simulam agir e falar com interesses e paixões humanas". Outra característica das fábulas é que elas sempre afirmam explicitamente uma verdade moral não há significado oculto, nada é deixado à nossa imaginação.
Na versão mais antiga dessa história, os dois porquinhos mais novos são devorados, mas nas versões contemporâneas todos se salvam.
A história “Os Três Porquinhos” possui a simplicidade que as crianças bem pequenas apreciam, sem muitos personagens, os bons de um lado e um malvado de outro. A trama, apesar de simples, toca a fundo as crianças.
A história trata de diversas questões. Uma delas é a do “princípio do prazer” versus o “princípio da realidade”. O menor dos porquinhos construiu sua casa com menos cuidado, com um pouco de palha. Ele queria construir sua casa rapidamente, ele desejava obter prazer imediato. O segundo porquinho, mostrou algum amadurecimento e construiu sua casa mais firme que a do irmão anterior, utilizou madeiras, mas também demonstrou imprudência, e não foi capaz de dominar completamente seu princípio de prazer. Somente o terceiro porquinho, demonstrou maturidade e ser regido pelo princípio da realidade. Ele sabe adiar o seu desejo de satisfação e despende um tempo maior para construir uma casa mais resistente mais sólida possível, e construiu com tijolos, decisão que salvará sua vida e de seus irmãos. Segundo Bettelheim (1980), As casas construídas pelos três porquinhos são simbólicas do progresso do homem na história: de uma casa de palha desajeitada para uma de madeira, finalmente para uma de tijolos.
De acordo com Freud, o princípio da realidade caracteriza-se pelo adiamento da gratificação. Agir de acordo como princípio da realidade consiste em dar conta das exigências do mundo real e das consequências dos próprios atos. Segundo Bettelheim, o conto aponta para,
...possibilidades de progresso do princípio do prazer para o princípio da realidade, o que, afinal de contas, não é senão uma modificação do primeiro. A estória dos três porquinhos sugere uma transformação na qual muito do prazer é retido, porque agora a satisfação é buscada com verdadeiro respeito pelas exigências da realidade (1980, p. 54).
A diferença de disponibilidade para o trabalho de cada porquinho representa de maneira simples para o entendimento da criança a questão do planejamento aliado a um trabalho árduo para obtermos a vitória. A cada investida do lobo, a casa é derrubada e eles correm para se abrigar na casa do irmão mais velho. A estória fala dos estágios de crescimento distintos, mostra os benefícios do desenvolvimento da inteligência e importância da maturidade, pois elas sabem que um dia terão de sair de casa e protegerem-se sozinhas. Portanto, vence aquele que melhor souber prever e se proteger, e essa fábula,
...dá conta da necessidade de proteção da criança diante de perigos que ela ainda não decodifica bem, mas desconfia que deve aprender a evitar. “Os Três Porquinhos” possui também agregado um aspecto de fábula moral, mostrando que a perseverança vence, que o mundo não é só brincar, que o trabalho árduo é recompensador e que crescer é saber cuidar de si (CORSO e CORSO, 2006, p.57) .
Outro ponto importante demonstrado no conto é que o porquinho não se satisfaz em fugir e procede como a criança que pede a repetição do conto, no incansável prazer de ter medo. Graças ao lobo, a criança poderá simbolizar seus medos.
O porquinho também pode ser pensado como sendo três em um. mostram o progresso da personalidade dominada pelo id para a personalidade influenciada pelo superego, mas essencialmente controlada pelo ego (BETTELHEIM, 1980, p. 53).
A criança, que através da estória foi convidada a identificar-se com um de seus protagonistas, não só recebe esperança, mas também lhe é dito que através do desenvolvimento de sua inteligência ela pode sair-se vitoriosa mesmo sobre um oponente muito mais forte.
Essa fábula convida a criança a identificar-se com um de seus protagonistas, e faz com que ela perceba que que através do desenvolvimento de sua inteligência, diante de uma situação difícil ela pode sair-se vencedora mesmo sobre um oponente muito mais forte ego.
A criança pequena tem um primitivo senso de justiça, e acredita que o lobo, é um animal malvado, porque deseja destruir. A maldade do lobo é alguma coisa que a criança reconhece dentro de si seu desejo de devorar e a consequência: sua ansiedade. Assim ela fantasia sofrer possivelmente, o mesmo destino. Assim o lobo é uma externalização, Logo a uma projeção da maldade da criança na personificação de um objeto fóbico que lhe ajude a circular no mundo externo.
9 – Considerações finais
A literatura infantil é grande valia na clinica psicanalítica com crianças. Ouvir / ler contos de fadas pode ser considerada uma atividade simbólica e terapêutica em análise com crianças, pois servem como instrumentos mediadores entre o inconsciente e o consciente que favorecem os processos de autoconhecimento e de transformação pessoal.
10 – Referências
BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
BONAVENTURE, J. O que conta o conto? São Paulo: Paulus, 2003.
CORSO, D. L.; CORSO, M. Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed Editora, 2006
FREUD, S. (1908). Escritores criativos e devaneios Vol. IX. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
JORGE, M.A.C. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan. vol.2: a clínica da fantasia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
____. (1909) Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. Vol. X. In:
Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio
de Janeiro: Imago, 2006.
____. (1913) O tema dos três escrínios. Vol. XII. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
____. (1919) O estranho. Vol. XIV. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
____. Uma nota sobre a pré-história da técnica de análise (1920) In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985.
————. O seminário sobre a carta roubada. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1998.
MADAME BOVARY NO DIVÃ
Por Mônica Perny
Apresentação
O texto tem como objetivo um breve estudo da psicanálise articulada ao
amor e a literatura para melhor compreensão do comportamento da personagem Emma
do romance realista francês “Madame Bovary” de Gustave Flaubert.
Introdução
Em 1856, após cinco anos de trabalho, o escritor francês Gustave
Flaubert (1821-1880) publicou seu romance mais importante: Madame Bovary, no
qual criticou os valores românticos e burgueses da época. O livro gerou grande polêmica
e seu autor foi processado sob a acusação de “ofensa à moral pública e
religiosa”.
Sua obra tornou-se a mais representativa do Realismo francês e exerceu grande
influência sobre escritores brasileiros, entre eles de Aluísio Azevedo e
Machado de Assis.
O romance tem como pano de fundo uma sociedade provinciana conservadora e
moralista. A personagem central é Emma Bovary, uma mulher romântica e insatisfeita
com a vida provinciana; mulher egocêntrica e ambiciosa que acreditava que só
seria feliz numa vida de luxo e poder. Era nos livros que Emma buscava fugir da
realidade. Influenciada pelas leituras românticas e sua permanente insatisfação
com o mundo real faz com que Emma desse um trágico fim a sua angústia.
Emma Bovary
Emma era uma jovem camponesa instruída e educada. Moça sonhadora queria
ter e ser aquilo que estava longe da sua realidade. Esta obsessão fantasiosa de
Emma era alimentada pelas leituras de romances que versavam sobre o amor. Era nos livros que Emma buscava fugir da
realidade. Através das leituras e de seus devaneios românticos, repletos de
aventuras e paixões, a moça construiu seu referencial de vida idealizado.
A Emma foi praticamente oferecida a Charles Bovary, por seu pai, um
lavrador que passava por dificuldades financeiras. Emma acreditava que Charles
seria capaz de lhe dar os prazeres da paixão. Assim, Emma casou-se com Charles
não só porque acreditava estar apaixonada por ele, mas também porque acreditava
que o casamento lhe daria a oportunidade de ascender socialmente. Via no
casamento uma vida de glamour. Porém casamento não lhe trouxe a felicidade
apresentada nos livros que lera.
Charles Bovary era o oposto da protagonista. Médico provinciano, pacato
e desprovido das grandes ambições, casou-se com Emma por amor.
A decepção da recém-casada Emma Bovary começou logo na lua-de-mel. Emma
logo percebeu que a como esposa, assim como o marido não seriam capazes de
satisfazer seus anseios. Mesmo casada, seu cotidiano era entediante e rotineiro
e seu marido Charles, não era um amante sedutor e galante tal como os amantes descritos
nas páginas dos romances que lia. Começou aí a sua angústia.
Via seu marido como um homem
medíocre, fracassado e frio, passando a desprezá-lo. Nem mesmo a maternidade
fora capaz de lhe dar felicidade e alegria.
Esposa adúltera buscou extravasar
sua angústia nos relacionamentos extraconjugais frustrados e no consumo desmedido
de futilidades, que a fez contrair dívidas impagáveis levando sua família à
ruína.
Rasgado
o véu da fantasia, Mme. Bovary não foi capaz de lidar com a realidade
quotidiana. Diante da concretude nada romântica da vida, onde não havia mais
nada para fantasiar, num ato de desespero cometeu o suicídio.
Considerações
finais
Emma tinha o hábito de ler romances de
amor. Moça ingênua considerava sua vida no campo monótona e chata, buscava
refúgio nos romances para preencher o vazio de suas experiências pessoais.
Estes foram capazes fazer com que sua imaginação criasse as sensações antes das
experiências. Este foi o ponto de
partida para a trajetória de deslocamento de um ser (real) para outro
(imaginário).
Este processo inaugura o fenômeno do
Bovarismo, que na prática faz em trazer para a realidade hábitos imaginados
somente para sentir-se a tal imaginada.
Assim, Emma construiu sua vida construída
num terreno frágil de bases ilusórias. Enredou-se num romantismo imaginário,
alimentado pelas leituras, que a afastando-a cada vez mais da sua realidade e
se aproximar de suas fantasias. Ousada, desafiou o seu tempo para encontrar a
felicidade e o sentimento de completude. Entregou-se de corpo e alma ao hedonismo para preencher
a sua falta, o seu vazio existencial. Mas o que Emma não sabia, era que estaremos
sempre na falta tentando preencher com mais e mais objetos o nosso vazio.
Madame Bovary apresenta uma estrutura histérica
com sintomas clássicos, descritos pela psicanálise. Conclui-se, portanto que, todas
as ações de Madame Bovary (suas investidas extraconjugais e extrapolação do seu
poder de compra) foram guiados pelo mesmo e único signo: a paixão.
Referências
FERREIRA, Nadiá Paulo. O amor na Literatura e na Psicanálise. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2008. Disponível em:
<http://www.dialogarts.uerj.br/arquivos/O.Amor.Nadia.pdf>.
Acesso em: 20 set.2011.
PALMIERI, Gisele Maria Nascimento. O fetiche de Madame Bovary. Disponível
em:
<http://www.palpitar.com.br>.
Acesso em: 29 set.11.
SANTOS, Goiamérico Felício Carneiro. Madame Bovary: a paixão, o consumo.
Disponível em:
<http://galaxy.intercom.org.br:8180/dspace/bitstream/1904/17452/1/R0731-1.pdf>.
Acesso em 28 set. 2011.
SCOTTI,
Sérgio. A histeria em Freud e Flaubert. Disponível
em:
<http://www.scielo.br/pdf/epsic/v7n2/a14v07n2.pdf>.
Acesso em 20 set. 2011.
_____. Psicanálise
e literatura, o objeto e o estilo em Flaubert e Joyce. Disponível em: <http://www.omarrare.uerj.br/numero11/pdfs/sergio.pdf>.
Acesso em: 20 set. 2011.
A HISTERIA DE ANGÚSTIA NA INFÂNCIA
A HISTERIA DE ANGÚSTIA NA INFÂNCIA
Autor: Mônica Perny
Introdução
Este ensaio busca
fazer um recorte referente a fobia infantil e a formação do sintoma fóbico,
tendo como objetivo compreender a relação da fobia articulado com a curiosidade
infantil. O referencial teórico tem como
base obra freudiana “Análise de uma fobia em um menino de cinco anos”,
publicada em 1909, conhecida como o caso do “Pequeno Hans”. Sigmund Freud
acreditava na possibilidade de "se observar em crianças, em primeira mão e
em todo o frescor da vida, os impulsos e desejos sexuais que tão laboriosamente
desenterramos nos adultos dentre seus próprios escombros" (FREUD, 1909,
p.16).
O primeiro caso da psicanálise freudiana com criança
"O pequeno Hans", é considerado o primeiro caso da
psicanálise freudiana com criança.
Apesar Freud não ter tratado o menino diretamente, ele registra a
importância de sua observação:
Quando um médico trata de um neurótico adulto pela
psicanálise, o processo que ele realiza de pôr a descoberto as formações
psíquicas, camada por camada, capacita-o, afinal, a construir determinadas
hipóteses quanto à sexualidade infantil do paciente; e é nos componentes dessa
última que ele acredita haver descoberto as forças motivadoras de todos os sintomas
neuróticos da vida posterior (FREUD, 1909, p.15).
Portanto é correto afirmar que, as fobias podem surgir na
infância e se não tratadas adequadamente, poderão persistir e tornar-se
problemática na idade adulta. Freud já havia formulado estas hipóteses numa
obra anterior – Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905 d).
Ao publicar seus estudos sobre a sexualidade infantil, Freud
ousou e escandalizou a sociedade vitoriana, ao discorrer teoricamente sobre
aspectos inconscientes presentes na infância nunca antes pensados, tais como:
excitação sexual, estimulação genital infantil e tendo como consequência o
surgimento das angústias, medos e conflitos no sujeito.
A análise do pequeno
Hans
O pequeno Hans se chamava Herbert Graf. Nasceu em 1903 e morreu
1973. Hans foi a primeira criança a ser atendida através do método
psicanalítico freudiano, tornando-se como paradigma para o desenvolvimento da
psicanálise com crianças, especialmente desenvolvidas por Anna Freud e Melanie
Klein. A análise do pequeno Hans iniciou quando o menino tinha três anos de
idade, porém, os primeiros relatórios enviados pelo pai do menino, Max Graf, a
Freud sobre o desenvolvimento do filho datam de um período pouco anterior. Portanto Freud foi o analista propriamente
dito do o menino, mas participou como supervisor do caso. Max Graf mostrou
interesse em anotar suas observações sobre a vida sexual do filho a partir do
seu entusiasmo pelos relatos de sua esposa, Olga König, que havia realizado
análise com Freud, e também por ter sido incentivado em registrar estas
observações durante sua participação assídua nas Reuniões da Sociedade
Psicológica das Quartas-Feiras. Para Freud estes registros tornavam-se
fundamentais para comprovar suas teorias sobre a sexualidade infantil que até
então obtidas a partir do tratamento em adultos Após a análise dos relatórios
enviados pelo pai de Hans, Freud selecionava apenas os que abordavam as
questões relativas à curiosidade sexual do filho. Freud centrou a análise do
menino em torno do complexo de Édipo e de castração, tendo como objetivo
desenvolver sua teoria sobre a angústia de castração. Segundo Freud, “Hans era
realmente um pequeno Édipo que queria ter seu pai “fora do caminho”, queria
livrar-se dele, para que pudesse ficar sozinho com sua linda mãe e dormir com
ela” (FREUD, 1909, p. 103).
Quando tinha três anos, Hans começou a demonstrar um
interesse obsessivo por seu pênis, chamado por ele de "faz-pipi” e pelo
órgão sexual da mãe, que ele também chamava de "faz- pipi”, portanto o
menino apresentava um interesse libidinal ligado à masturbação e curiosidade
sexual. Posteriormente ele passou a ter interesse também pelo "faz-pipi”
de outros seres animados. Sua mãe por diversas vezes lhe ameaçara cortar o
“faz-pipi” caso o tocasse e segundo Freud estes eventos permitiram o menino a
vivenciar o Complexo de Castração.
Quando Hans tinha três anos e meio, questionava sobre o nascimento de sua irmã,
Hanna. Segundo Barros (1988) as práticas masturbatórias e o nascimento da irmã
leva ao rompimento na relação dual entre Hans e sua mãe.
A histeria de
angústia infantil
Os primeiros indícios de fobia são relatados pelo pai de
Hans, quando o menino passa a não querer sair de casa por sentir medo de
cavalos e temer ser mordido por eles. A primeira manifestação da fobia de Hans
aconteceu num ele passeio com a babá quando começou a chorar, pedindo para
retornar para casa. Segundo a observação de Freud este episódio não apresentou
subsídios clínicos para que Hans fosse diagnosticado com agorafobia. O termo
fobia é derivado do grego phobos. Na
psicanálise a fobia não é considerada uma neurose, mas sim um sintoma Segundo
Freud Hans apresentava um distúrbio psiconeurótico dos mais comuns - a histeria
de angustia. Uma de suas características é poder surgir na fase infantil e por
isto considerada como uma neurose da infância por excelência. Na opinião de Freud, de todos os distúrbios
psiconeuróticos, a histeria de angústia, é a que “menos dependente de uma
disposição constitucional especial e é consequentemente, o mais facilmente
adquirido em qualquer época da vida” (FREUD, 1909, p. 107).
A histeria de angústia é uma neurose do tipo histérico, na
qual o sujeito converte uma angústia num terror sem motivo, diante de um
objeto, um ser vivo ou uma situação que não apresentam em si nenhum perigo
real. Na psicanálise freudiana, a sexualidade situa-se no centro do sintoma
fóbico da histeria de angústia. A fobia
é um sintoma muito comum na infância, especialmente quando a criança vivencia
um sentimento antagônico para uma única pessoa. No caso de Hans para o pai: ele
ama o pai que o protege, mas também o odeia por este lhe impor limitações aos
seus irrefreáveis desejos. Diante deste conflito de sentimentos o menino tentou
eliminar um destes sentimentos "ambivalentes", optando pelos mais
hostis conferindo um destino específico para estes: o deslocamento. Na análise
de Freud, Hans apresentava fobia por cavalos. Freud associou os cavalos ao pai
de Hans, conforme texto abaixo:
[...] revelei-lhe então que ele tinha medo de seu pai
exatamente porque gostava muito de sua mãe. Disse-lhe da possibilidade de ele
achar que seu pai estava aborrecido com ele por esse motivo; contudo isso não
era verdade, seu pai gostava dele apesar de tudo, e ele podia falar abertamente
com ele, sobre qualquer coisa, sem sentir medo. Continuei, dizendo que bem
antes de ele nascer eu já sabia que ia chegar um pequeno Hans que iria gostar
tanto de sua mãe que, por causa disso, não deixaria de sentir medo de seu pai;
e também contei isso a seu pai (Freud, 1909, p. 45).
Considerações finais
Hans não teve sucesso
na eliminação de seus sentimentos hostis pelo pai, o que resultou numa fobia,
que nada mais é do que o deslocamento estratégico dos sentimentos de uma
situação original para uma outra remota: o medo na situação original (o medo do
pai) desloca-se para outro “objeto” do qual Hans é capaz de se defender ficando
fisicamente distante: o objeto fóbico (cavalo). Isto explica o fato do menino
apresentar um medo desproporcional e injustificado por cavalos.
Hans desenvolveu algumas fantasias fóbicas como mecanismo de
defesa para atenuar sua angústia de castração, ou seja, a fantasia ocupa o
lugar do falo perdido. O menino ao se deparar com a privação materna elege um
elemento imaginário ligado a sua fobia.
Na análise de Freud a fobia de cavalos de Hans estava relacionada ao
medo inconsciente de ser castrado pelo pai devido do amor que nutria pela mãe.
A manifestação do complexo de Édipo promoveu a cura do pequeno infante e foi de
inestimável valia para Freud teorizar essa sua experiência prática. Portanto
qualquer fobia é manifestação de uma angústia profunda, muitas vezes sem
relação aparente com o objeto fóbico.
Referências
BARROS, Romildo R. do Rêgo. Alguns comentários sobre a
solução fóbica, in: A ordem do sexual. Rio de Janeiro: Campus, 1988, p.
33.
FREUD, S. (1909) Análise de uma fobia em um menino de cinco
anos. Vol. X. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund
Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Se persistirem os sintomas, consulte um Psicanalista!
Numa sociedade em que o cidadão é monitorado por "olhos eletrônicos", faróis inteligentes, câmeras digitais, numa constante sensação de paranóia implícita, o resultado não pode ser dos melhores.
Quando a vida pessoal se transforma num inferno particular, o mal-estar crônico adquire novas formas sintomáticas e a ansiedade toma conta.
Neste momento, o que se recomenda é procurar ajuda profissional. Se for um médico ou psiquiatra, a terapia medicamentosa estará ao alcance das mãos, mas se a opção fosse um psicanalista, a terapia baseada na palavra faria o sujeito falar do seu sofrimento.
A prática clínica consiste em fazer o paciente contar sobre quem ele pensa que é e como ele se apresenta para si e para quem o escuta. Como enfatizava Jacques Lacan, o analista age menos pelo que diz e faz do que por aquilo que é.
Significa que este exerce essa função somente quando houver alguém que lhe demande neste lugar. Entre quatro paredes e um divã, o analista se pergunta: O que ele quer de mim? A cura ou o apego ao sintoma? Quem ele pensa que sou, quando diz isso?
Em outras palavras, o analista funciona como arrimo das representações inconscientes com as quais o paciente dialoga e lida sem saber ao certo que isso acontece na transferência. A associação livre, regra fundamental do tratamento, opera mudanças quando o discurso faz um novo sentido, redefinindo o modo de escutar a própria história.
Quem não deseja falar de si para alguém? Ainda mais, quando as relações são vividas como superficiais, passageiras e vazias. Na era da comunicação móvel, o diálogo não é mais dialógico, é atravessado pelas lentes das tecnologias digitais criando uma profusão de sentidos díspares.
Para os mais jovens, as novas mídias e as redes sociais digitais (facebook, twitter, blogs) são fatos consumados: por meio destas tecnologias que a vida rola solta.
Alguns analistas acompanham a tendência e postam páginas no facebook, enquanto outros são seguidos no twitter ou nos blogs inteligentes e criativos sobre temas do cotidiano.
Estes eventos demonstram que a sociabilidade em rede, onde o virtual e o real são vivenciados como sendo a mesma coisa, chegou para ficar e apresenta dinâmicas nunca antes cogitadas, enquanto a energia se sustentar, pois na falta dá-se o caos.
Algumas situações que ocorrem hoje em sessões de análise confirmam como a cultura digital faz parte da produção do inconsciente.
Os analisantes se valem do torpedo para mandar mensagens ao psicanalista como: "estou a caminho", "desculpe, mas não poderei ir", "podemos mudar a sessão?" ou, quando não desligam o celular e dizem: "desculpe, mas preciso atender" ou "vou desligar o aparelho".
Outro fenômeno interessante é quando o paciente, para ser o mais fiel em seu discurso, lê o que o outro lhe escreveu no celular.
Sob esta perspectiva, as linguagens apresentadas sob os diferentes suportes - tablets, smartphones, laptops - compõem um aspecto da transferência de saber que a psicanálise atual deve conhecer e manejar.
Segundo a semioticista Lucia Santaella, "estamos vivendo a transição entre um modelo de acesso restrito à informação para um modelo aberto e livre, no qual a informação se espalha por todas as superfícies e ambientes".
Com essa constatação, fica-se mais exposto ao meio; porém, isto poderia prejudicar as análises? Ou, quanto mais o psicanalista parecer como um de nós, menor seria a idealização que gira em torno dele?
No passado, havia uma idéia de que o paciente não podia ter acesso à vida privada do analista, ao ponto de se produzir enormes resistências ao tratamento, se algo fosse revelado da sua intimidade.
O constrangimento maior era encontrá-lo em ambientes comuns e não saber o que fazer: cumprimentar, ignorar ou se esconder. Naquelas épocas, as análises eram restritas apenas à elite que podia pagar por elas, e os profissionais, todos de formação médica.
Tudo isso mudou! Hoje, os psicanalistas são psicólogos em grande maioria, e a psicanálise tornou-se conhecida e mais acessível. Desperta curiosidade, desejo de conhecer e experimentar; é assunto freqüente, tanto na mídia, quanto nas pesquisas acadêmicas.
Em público, diversos analistas emitem opiniões, participam de entrevistas e debates sobre temas da própria práxis.
Apesar de tantas informações, as pessoas têm dificuldade de diferenciar psicoterapeuta, psicólogo, psicanalista e psiquiatra, ainda que se tenha confiança de serem profissionais que cuidam da "cabeça", da "mente", do "subconsciente", do "psicológico" e do "comportamento".
As pessoas chegam aos consultórios com pesquisas feitas no Google sobre o remédio que estão tomando ou sobre o sintoma favorito, resultando em informações fragmentadas sobre a matéria. Não são poucas as medicadas indiscriminadamente; mais por médicos generalistas do que por psiquiatras.
Com notável sucesso de vendas e com o aumento de usuários das "tarjas pretas", o perfil do consumidor interessou as agências de publicidade, com os remédios apresentados na propaganda como produtos de primeira necessidade.
Não é para menos, quem ficou dependente de ansiolíticos e/ou antidepressivos, para poder se livrar deles, precisa tomar outra pílula que anula o efeito da anterior, e assim por diante.
É preciso um coquetel de pílulas para um coquetel de sintomas, deixando como rastro o insone que erra nas noites mal dormidas. Quem já passou por isso se reconhece quando alguém diz, ao chegar ao trabalho: "Cara, não agüentei e tomei um Dramin, e agora não consigo parar em pé".
A ausência de sono que afeta tanta gente, seja esta breve ou prolongada, é de tirar do sério. Para muitos, o uso constante das gotas de Rivotríl é mais eficaz do que contar carneirinhos. Pois é: até para nanar, é preciso se dopar!
Localizado no sono REM, o sonho é suprimido pela ação da droga, e não há nada menos salutar do que deixar de sonhar, sem lembrar nada para contar. Perde-se uma parte de si, um detalhe do mundo anímico que faz coro com o autoconhecimento e a dimensão subjetiva do desejo.
O inconsciente, patrimônio freudiano, nada tem a ver com o sistema nervoso central ou periférico. Mas, quando não podemos evitar que algumas fórmulas de compromisso caduquem com o passar do tempo, inviabilizando a felicidade e a tranqüilidade, talvez seja o momento exato para começar uma análise.
Os seres humanos são complicados, melhor dizendo, complexos. Soltos no mundo, desde crianças, temos de responder, como adultos, aos desafios da vida, antes reais do que virtuais. E o fato de sermos falantes, sexuados e mortais, isso não tem remédio. Independente dos meios eletrônicos, a cura pela palavra mantém seu prestígio, com mais de um século de sucesso em cartaz.
FANI HISGAIL é Psicanalista e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP e autora do livro "Pedofilia, Um Estudo Psicanalítico" (Ed. Iluminuras, 2007); hisgail@uol.com.br
FANI HISGAIL
Numa sociedade em que o cidadão é monitorado por "olhos eletrônicos", faróis inteligentes, câmeras digitais, numa constante sensação de paranóia implícita, o resultado não pode ser dos melhores.
Quando a vida pessoal se transforma num inferno particular, o mal-estar crônico adquire novas formas sintomáticas e a ansiedade toma conta.
Neste momento, o que se recomenda é procurar ajuda profissional. Se for um médico ou psiquiatra, a terapia medicamentosa estará ao alcance das mãos, mas se a opção fosse um psicanalista, a terapia baseada na palavra faria o sujeito falar do seu sofrimento.
A prática clínica consiste em fazer o paciente contar sobre quem ele pensa que é e como ele se apresenta para si e para quem o escuta. Como enfatizava Jacques Lacan, o analista age menos pelo que diz e faz do que por aquilo que é.
Significa que este exerce essa função somente quando houver alguém que lhe demande neste lugar. Entre quatro paredes e um divã, o analista se pergunta: O que ele quer de mim? A cura ou o apego ao sintoma? Quem ele pensa que sou, quando diz isso?
Em outras palavras, o analista funciona como arrimo das representações inconscientes com as quais o paciente dialoga e lida sem saber ao certo que isso acontece na transferência. A associação livre, regra fundamental do tratamento, opera mudanças quando o discurso faz um novo sentido, redefinindo o modo de escutar a própria história.
Quem não deseja falar de si para alguém? Ainda mais, quando as relações são vividas como superficiais, passageiras e vazias. Na era da comunicação móvel, o diálogo não é mais dialógico, é atravessado pelas lentes das tecnologias digitais criando uma profusão de sentidos díspares.
Para os mais jovens, as novas mídias e as redes sociais digitais (facebook, twitter, blogs) são fatos consumados: por meio destas tecnologias que a vida rola solta.
Alguns analistas acompanham a tendência e postam páginas no facebook, enquanto outros são seguidos no twitter ou nos blogs inteligentes e criativos sobre temas do cotidiano.
Estes eventos demonstram que a sociabilidade em rede, onde o virtual e o real são vivenciados como sendo a mesma coisa, chegou para ficar e apresenta dinâmicas nunca antes cogitadas, enquanto a energia se sustentar, pois na falta dá-se o caos.
Algumas situações que ocorrem hoje em sessões de análise confirmam como a cultura digital faz parte da produção do inconsciente.
Os analisantes se valem do torpedo para mandar mensagens ao psicanalista como: "estou a caminho", "desculpe, mas não poderei ir", "podemos mudar a sessão?" ou, quando não desligam o celular e dizem: "desculpe, mas preciso atender" ou "vou desligar o aparelho".
Outro fenômeno interessante é quando o paciente, para ser o mais fiel em seu discurso, lê o que o outro lhe escreveu no celular.
Sob esta perspectiva, as linguagens apresentadas sob os diferentes suportes - tablets, smartphones, laptops - compõem um aspecto da transferência de saber que a psicanálise atual deve conhecer e manejar.
Segundo a semioticista Lucia Santaella, "estamos vivendo a transição entre um modelo de acesso restrito à informação para um modelo aberto e livre, no qual a informação se espalha por todas as superfícies e ambientes".
Com essa constatação, fica-se mais exposto ao meio; porém, isto poderia prejudicar as análises? Ou, quanto mais o psicanalista parecer como um de nós, menor seria a idealização que gira em torno dele?
No passado, havia uma idéia de que o paciente não podia ter acesso à vida privada do analista, ao ponto de se produzir enormes resistências ao tratamento, se algo fosse revelado da sua intimidade.
O constrangimento maior era encontrá-lo em ambientes comuns e não saber o que fazer: cumprimentar, ignorar ou se esconder. Naquelas épocas, as análises eram restritas apenas à elite que podia pagar por elas, e os profissionais, todos de formação médica.
Tudo isso mudou! Hoje, os psicanalistas são psicólogos em grande maioria, e a psicanálise tornou-se conhecida e mais acessível. Desperta curiosidade, desejo de conhecer e experimentar; é assunto freqüente, tanto na mídia, quanto nas pesquisas acadêmicas.
Em público, diversos analistas emitem opiniões, participam de entrevistas e debates sobre temas da própria práxis.
Apesar de tantas informações, as pessoas têm dificuldade de diferenciar psicoterapeuta, psicólogo, psicanalista e psiquiatra, ainda que se tenha confiança de serem profissionais que cuidam da "cabeça", da "mente", do "subconsciente", do "psicológico" e do "comportamento".
As pessoas chegam aos consultórios com pesquisas feitas no Google sobre o remédio que estão tomando ou sobre o sintoma favorito, resultando em informações fragmentadas sobre a matéria. Não são poucas as medicadas indiscriminadamente; mais por médicos generalistas do que por psiquiatras.
Com notável sucesso de vendas e com o aumento de usuários das "tarjas pretas", o perfil do consumidor interessou as agências de publicidade, com os remédios apresentados na propaganda como produtos de primeira necessidade.
Não é para menos, quem ficou dependente de ansiolíticos e/ou antidepressivos, para poder se livrar deles, precisa tomar outra pílula que anula o efeito da anterior, e assim por diante.
É preciso um coquetel de pílulas para um coquetel de sintomas, deixando como rastro o insone que erra nas noites mal dormidas. Quem já passou por isso se reconhece quando alguém diz, ao chegar ao trabalho: "Cara, não agüentei e tomei um Dramin, e agora não consigo parar em pé".
A ausência de sono que afeta tanta gente, seja esta breve ou prolongada, é de tirar do sério. Para muitos, o uso constante das gotas de Rivotríl é mais eficaz do que contar carneirinhos. Pois é: até para nanar, é preciso se dopar!
Localizado no sono REM, o sonho é suprimido pela ação da droga, e não há nada menos salutar do que deixar de sonhar, sem lembrar nada para contar. Perde-se uma parte de si, um detalhe do mundo anímico que faz coro com o autoconhecimento e a dimensão subjetiva do desejo.
O inconsciente, patrimônio freudiano, nada tem a ver com o sistema nervoso central ou periférico. Mas, quando não podemos evitar que algumas fórmulas de compromisso caduquem com o passar do tempo, inviabilizando a felicidade e a tranqüilidade, talvez seja o momento exato para começar uma análise.
Os seres humanos são complicados, melhor dizendo, complexos. Soltos no mundo, desde crianças, temos de responder, como adultos, aos desafios da vida, antes reais do que virtuais. E o fato de sermos falantes, sexuados e mortais, isso não tem remédio. Independente dos meios eletrônicos, a cura pela palavra mantém seu prestígio, com mais de um século de sucesso em cartaz.
FANI HISGAIL é Psicanalista e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP e autora do livro "Pedofilia, Um Estudo Psicanalítico" (Ed. Iluminuras, 2007); hisgail@uol.com.br
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Psicanálise & Barroco em Revista chega ao seu décimo ano de existência. Assim, é com muita alegria que comunicamos olançamento do V.10, n.1. Agradecemos o estímulo e a contribuição que nossos autores e leitores vem nos dando ao longo desse tempo e aproveitamos também, lhes pedir que divulguem em suas caixas de email e entre seus pares a nossa revista. Lembramos que estamos abertos ao recebimento de artigos, ensaios, resenhas e comunicações de pesquisa. Segue abaixo o link da revista e o sumário desse novo número. A todos, uma boa leitura!
Denise Maurano e Francisco Ramos de Farias
Revista de Psicanálise, Memória, Arte e Cultura
PPGMS/UNIRIO
Psicanálise & Barroco em revista
(ISSN:1679-9887)
Ano 10, Número 01: Edição julho de 2012
Sumário
Editorial ................................................................................................................................................................. 06
Denise Maurano e Francisco R. de Farias
Artigo
Caminhos da Memória Social do Hospital de Custódia e tratamento Heitor Carrilho: uma investigação filosófica.................................................................................................13
Diana de Souza Pinto e Uriel Massalves de Souza do Nascimento
A recordação infantil e a constelação parental de Leonardo da Vinci: psicanálise, constituição subjetiva e biografia....................................................................................................36
Douglas Emiliano Batista
O paradoxo da coexistência de saberes: psicanálise e o poder judiciário......................................................... 60
Felipe Barreto Nery Coutinho
Ages conforme o teu desejo?- Uma reflexão sobre as relações amorosas segundo Lacan.............................. 73
Ronaldo Manzi Filho
A escrita na loucura: uma questão de inscrição.................................................................................................. 85
Silvana de Oliveira Tatto e Marcos Pippi de Medeiros
Morte, angústia e família: considerações psicanalíticas a partir de uma unidade de terapia intensiva........... 97
Camilla Araújo Lopes Vieira e Gardênia Holanda Marques
O inconsciente lacaniano..................................................................................................................................... 109
Joyce Bacelar Oliveira
A dualidade do imaginário, entre Eros e Tânatos............................................................................................... 122
Julio Cesar Lemes de Castro
Tornar-se analista............................................................................................................................................... 139
Lavínia Carvalho Brito Neves
Theodor W. Adorno e a esperança no progresso............................................................................................... 148
Sandra Faria de Resende Nascimento & Kety Valéria Simões Franciscatti
O grande dragão vermelho: paranoia e psicose................................................................................................ 163
Socorro de Fátima Pacífico Barbosa & Thays Rochelle Carvalho Figueredo
Resenha
Em torno de um olhar impossível....................................................................................................................... 187
Vanisa Maria da Gama Moret Santos
Contents....................................................................................................190
Sommaire..................................................................................................................192
Instruções aos autores....................................................................................................................................... 194
sexta-feira, 27 de julho de 2012
A primeira matéria do Núcleo de Psicanálise de Macaé que foi publicada na revista DiverCidade.
A revista DiverCidade encontra-se nos melhores locais de Macaé. Como Restaurantes, Consultórios, livrarias e Comércio em geral.
A Matéria, A FAMÍLIA NO DIVÃ, estará apartir desse mês nas páginas da revista.
A revista DiverCidade encontra-se nos melhores locais de Macaé. Como Restaurantes, Consultórios, livrarias e Comércio em geral.
A Matéria, A FAMÍLIA NO DIVÃ, estará apartir desse mês nas páginas da revista.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Eis os exemplos de quatro etapas
concretas que poderiam formar estes processos de transição a juntar a vários
outros.
1. Ao levantar-se de manhã, pense
imediatamente: "Eu devo fazer isto, falta-me fazer aquilo, etc.”.
ATITUDE POSITIVA: Hoje você irá pensar
bem cedo o que gostaria de fazer e não o que deveria fazer. Cada vez que cumpra
uma obrigação, compense-a fazendo alguma coisa que queira simplesmente.
2. Você está preso num
engarrafamento causado por um acidente. Você está sempre a reclamar consigo
próprio.
ATITUDE POSITIVA: Diga para si
próprio que é melhor estar num engarrafamento do que num acidente que tenha
provocado. Aproveite a pausa para distender os músculos e respire profundamente
pensando em coisas agradáveis.
3. Vai assistir a um espetáculo.
No guichê não lhe entregam o troco certo.
Você chama a atenção da pessoa responsável dizendo: "De todas as
maneiras, é um imbecil. Estas pessoas são todas imbecis, mas não podemos fazer
nada”.
ATITUDE POSITIVA: Faça acentuar
um pequeno sorriso e pense: "Depois de tudo, errar é humano, toda gente se
pode enganar”.
4. Você levanta-se de manhã e os
músculos já estão tensos. Você passa o dia com o rosto tenso, com os maxilares
contraídos e com uma expressão tensa e dolorosa.
ATITUDE POSITIVA: Durante o dia,
dá calmamente ordem de distender os músculos. Descontraia o rosto, descontraia
os ombros e os músculos dos maxilares. As aplicações na vossa vida profissional
e pessoal são infinitas. Há que descobri-las.
Fonte: http://www.clube-positivo.com
Hoje quero muito agradecer o acolhimento carinhoso dos professores do
Centro Educacional Araujo Castro (CEAC) em São Gonçalo, por ocasião de minha palestra “Brinquedoteca escolar”. Deixo registrado
aqui minha admiração ao trabalho realizado nessa instituição, bem como a
excelência de suas instalações, a simpatia e competência da equipe.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
O castelo dos nossos medos
No bosque dos sonhos existe um castelo que guarda os nossos
medos. Ninguém sabe exatamente onde se encontra, pois o desafio é achar o
caminho de volta. Sabe-se que fica entre a esquina da rua do Silêncio com a da
Atitude. Às vezes a vida nos transporta para lá. Pode ser fascinante, mas
também assustador. Possui um colorido sombrio, como aquele que vemos quando
sonhamos e não sabemos ao certo as cores, mas temos a certeza de que existiam e
pareciam até reais. As paredes de concreto abrigam o abstrato da fantasia.
Todos os muros e colunas têm aquarelas musicadas soando ecos de exclamações.
Pois lá é o lugar onde são enterrados em pintura aqueles impulsos mortos do que
se pensou em fazer e por medo desistimos.
Quando nascemos, nós fomos apresentados a aquele lugar
estranho ainda com os olhos muito fechados, por muitas vezes achávamos
aterrorizante e começávamos a chorar. Era quando apareciam os fantasmas, os
bichos-papões... E logo o nosso alarme berrante fazia com que nossos pais nos
salvassem. Mas outras vezes nossos olhos deixavam ocultas imagens necessárias
para que conseguíssemos enxergar as cenas mais belas que nenhum adulto sequer
conseguiria atingir. Nesses momentos, nossos desenhos foram motivos de risos.
Com o tempo fomos crescendo, vencendo os medos e
amadurecendo nossa presença neste lugar. As nossas responsabilidades
aumentando, decepções crescentes, faz-se necessária nossa ida, onde lá a paz é
constante. Já não berramos como antigamente, não temos heróis e por isso a dor
parece ser maior. O mundo é monstruoso, maior do que o antigo "monstro do
armário"... Com quem podemos contar? Estamos sozinhos, e nos damos conta
de que somos todos sozinhos...
É por isso que no castelo dos medos existem anjos.
Geralmente somos abordados por eles, que tomam conta de nós . Suas pranchetas
sussurram nos nossos ouvidos perguntas como: " Por que aquela pessoa que
eu tanto amava se foi?", "Por que eu tive que passar por este momento
tão difícil na minha vida?", "Por que meu casamento está em crise, ou
não deu certo?" entre tantas outras perguntas curiosas.
Os anjos cuidam de nós e faz, não com que enxerguemos o
"porque" , mas com que através da reflexão nossas forças sejam
renovadas para acharmos uma saída. Afinal, no momento em que a vida nos leva ao
castelo, voltamos a reviver aquela criança frágil e precisamos de alguém que
nos salve, que escute nosso berro engolido. Porque fomos educados para não
chorar, para sermos adultos silenciosos. E ficamos na amargura, encolhidos no
nosso medo, olhando as pinturas na parede que mostram as atitudes não
realizadas. As oportunidades que perdemos e poderiam ter mudado nossa
direção... Aquele beijo que não demos antes do adeus... O perdão em que o
orgulho ferido não concedeu.... As palavras carinhosas que muitas vezes
queríamos ter dito e não dissemos... Aquele trocado que não dei ao menino que
passava fome na rua... Aquele amigo que pediu ajuda e não tivemos tempo...
Aquela pessoa que não tivemos coragem de nos envolver...
Os olhos voltam a ser aqueles pueris, e se fecham em lágrimas
e imagens estreitas, como aquelas dos nossos desenhos. E quando vemos,
revivemos a arte da nossa infância, temos olhos nos escuros e passamos a
enxergar o que não atingíamos . Enxergamos que é necessário tristezas para que
encontremos a felicidade, que é preciso perder para ganharmos. Existem pessoas
que passam a vida toda trancadas no castelo, mas bem no fundo sabem que é por
própria opção dela, que é possível achar a saída. Assim passamos toda a nossa
vida saindo e entrando sempre no bosque dos sonhos... Porque lá existe o
castelo dos medos que nos renova a coragem de prosseguir e faz com que
avistemos do alto os melhores caminhos. Aliás, foi do alto da janela deste
castelo que escrevi este conto... Foi através deste conto que encontrei a minha
saída.
Thaís Copetti
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Qual a cor da sua vida?
A vida é um acontecimento que merece ser
comemorado. Há cada dia, a cada instante, ela se renova generosa nos pequenos
espaços. A vida é miúda, feita de pequenas partes. Viver é construir um
mosaico, parte por parte, dia após dia. A beleza de um momento unida à tristeza
de outras horas passa a ocupar o mesmo espaço no quadro. As cores se misturam e
se arquitetam em busca da harmonia tão desejada.
Há dias em que as cores são frias... a
vida pede calma, silêncio, pausas...
Há dias em que as cores são quentes... a
vida rompe com toda forma de calma...”
Pe. Fábio de Melo
É uma preocupação antiga de o homem desejar sempre
reproduzir o colorido da natureza; o azul do céu, o verde das folhas, o
colorido das flores, os diversos tons das águas do mar.
Você consegue imaginar o mundo em preto e branco?
A cor é assimilada pelo ser humano através do sentido da
visão. A visão é dos cinco sentidos o que mais rapidamente conduz a informação
até ao cérebro. Dessa forma os olhos são os sensores e o cérebro é o
processador.
A visão representa uma das preciosidades que o homem recebeu
da natureza. É o sentido que faz vibrar o ser humano. A cor é indispensável ao
homem para que conheça o mundo que o rodeia isto porque esse mundo é
caracterizado pela luz e pelas cores, são estas últimas que ajudam a
compreender o espaço, a definir o que esta longe, e o que está perto, o que tem
volume...
Na arte a cor é especialmente importante. Na pintura a cor é
o elemento principal, é através dela que o pintor transmite os seus
sentimentos, as suas intenções, e define as formas.
A cor é vista:
impressiona a retina.
A cor é sentida: provoca emoção.
A cor é construtiva,
pois tem um significado próprio, tem valor de símbolo, sendo capaz de,
construir uma linguagem que comunique uma ideia ( alegria, tranquilidade,
excitação entre outras)
POR DENTRO DAS CORES
Cores Primárias
São
consideradas primárias porque através de misturas dão origem a todas as outras
cores. São elas azul, amarelo e vermelho.
Cores secundárias
As cores
secundárias resultam da mistura em proporções iguais de duas cores primárias.
Assim:
Cores
complementares
Cores complementares
são as cores opostas no disco de cores e são usadas para dar força e equilíbrio
a um trabalho criando contrastes. Por exemplo: O vermelho é complementar do verde. O azul é complementar do laranja.
Cores análogas
Cores análogas são as que aparecem lado-a-lado no disco de
cores. São análogas porque há nelas uma mesma cor básica. São usadas para dar a
sensação de uniformidade.
Tom
Refere-se ao maior ou menor
quantidade de luz presente na cor. Quando se adiciona preto a determinado
matiz, este se torna gradualmente mais escuro, e ao se adicionar o branco a
determinado matiz, este se torna gradualmente mais clara.
No ocidente, as cores surtem diferentes efeitos psicológicos
sobre as pessoas
Branco - purificador, perfeição, pureza, neutralidade,
humildade, limpeza, claridade, frieza e esterilidade, pureza, inocência,
reverência, paz, simplicidade, esterilidade, rendição, união;
Preto - luto, elegância, solidez, poder, modernidade,
sofisticação, formalidade, morte, medo, anonimato, raiva, mistério, azar;
Cinza - elegância, humildade, respeito, reverência,
sutileza;
Amarelo - concentração, disciplina, comunicação, ativa o
intelecto, positividade, boa sorte;
Vermelho - paixão, entusiasmo, impacto, agressividade,
força, energia, amor, liderança, masculinidade, perigo, fogo, raiva, revolução,
"pare";
Rosa - Amor, carinho, suavidade, acolhimento, romantismo;
Azul - harmonia, confidência, conservadorismo, austeridade,
monotonia, dependência, tecnologia, liberdade, saúde, purificação, amabilidade,
paciência, serenidade;
Ciano - tranquilidade, paz, sossego, limpeza, frescor;
Verde - esperança, cura, natureza, paz, natureza, primavera,
fertilidade, juventude, desenvolvimento, riqueza, dinheiro, boa sorte, ciúmes,
ganância, esperança;
Lilás - influenciam emoções e humores, intuição e
espiritualidade;
Roxo - velocidade, concentração, otimismo, alegria,
felicidade, idealismo, riqueza (ouro), fraqueza, dinheiro;
Magenta - luxúria, sofisticação, sensualidade, feminilidade,
desejo;
Violeta - espiritualidade, criatividade, realeza, sabedoria,
resplandecência, dor;
Laranja - equilíbrio, generosidade, entusiasmo, alegria,
aconchegante, energia, criatividade, equilíbrio, entusiasmo, ludismo;
Castanho - sólido, seguro, calmo, natureza, rústico,
estabilidade, estagnação, peso, aspereza.
O significado das cores em nossas vidas
TINTAS
A tinta é um líquido com pigmentos coloridos e aglutinantes
solventes ou aditivos que podem ser à base de água, óleos, betuminosas ou
plásticas.
O pigmento é uma
substância composta de partículas microscópicas coloridas que são misturadas à
tinta para dar cor. Pigmentos e corantes podem ser extraídos dos reinos
mineral, vegetal ou animal. Eles servirão para colorir a tinta. Folhas, raízes,
flores e cascas são corantes vegetais, que devem ser fervidos em água ou
através da extração do sumo. Depois de frio, o líquido obtido é capaz de
manchar uma superfície. Alguns exemplos:
- Amarelo
ou laranja: casca de cebola, girassol, cenoura.
- Vermelho:
serragem vermelha, jabuticaba, beterraba, urucum.
- Marrom:
café, chá preto.
- Verde:
folhas de cenoura, couve, erva-mate, loureiro.
- Roxo:
jamelão.
- Preto:
carvão, jenipapo.
Faça suas tintas
Tinta plástica:
-Misturar um pouco de cola branca na tinta guache ou PVA.
Tinta óleo
Para fazer tinta a óleo misture pigmento em pó (ex.: pó
xadrez) com óleo de linhaça. Use uma espátula para amassar bem o pó. O ponto
bom da tinta é o mesmo da consistência
da pasta de dente. Para lavar o pincel ou diluir a tinta use terebintina ou
aguarrás.
Têmpera
A têmpera é feita com gema de ovo e pigmento. Peneire a gema
para separar a sua pele. Se ovo estiver gelado fica mais fácil de retirar a
pele da gema. Pra cada gema misture uma colher de café de pigmento (ex.: pó xadrez).
Você pode utilizar um pouquinho de água para controlar a densidade.
Tinta com papel de
seda ou papel crepom.
-Ingredientes:
Uma folha de papel de seda ou crepom de cor viva; uma colher (de sopa) de álcool; uma
xícara (de café) de água. Misture tudo e deixar em fusão por dois dias.
Guardar em vidro fechado.
Crie sua paleta de
cores
Cores primárias:
Azul, Vermelho, Amarelo. O Branco e o Preto não são considerados cores, com eles
trabalham-se o claro e escuro / luz e sombra. Assim, quando uma cor é misturada
ao branco, você obtém o tom (tonalidade) ou matiz. Por exemplo, se você mistura
o branco a um azul puro, você obtém um azul celeste, um azul bebê etc.
Quando uma cor é misturada ao preto, você obtém a sombra, a
graduação (ou gradação). Por exemplo, se você mistura o preto a um azul puro,
você obtém um azul marinho, um azul escuro, um azul índigo.
Brinque com as cores
Laranja + Verde =
Ocre
Preto + Branco =
Cinza
Violeta + Branco =
Lilás
Azul + Amarelo =
Verde
Azul + Vermelho =
Violeta
Laranja + Branco =
Cor de pele
Azul + Branco = Azul
claro
Violeta + Vermelho = Carmim
Verde + Amarelo =
Verde folha
Vermelho + Amarelo =
Laranja
Violeta + Ocre =
Siena queimada
Vermelho + Branco = Cor rosa
Amarelo + Branco =
Amarelo canário
Vermelho + Verde =
Vermelho veneza
Verde + Violeta =
Sombra esverdeada
Violeta + Verde + Amarelo = Verde Musgo
Amarelo + Ocre = Amarelo
indiano ou ocre dourado
Violeta + Verde +
Azul = Preto marfim (calibrando com azul)
Enfim, vença a
timidez, o medo de errar, solte as mãos e a imaginação, explore o desconhecido
com coragem e determinação e obtenha sucesso!
Lembre-se:
Praticar é muito importante.
Referências
CANTELLE, Bruna R. Arte,
etc. e tal...Ensino básico de Educação Artística. Vol .1. São Paulo: IBEP.
FARINA, Modesto.
Psicodinâmica das cores em comunicação. São Paulo: Edgar Bücher, 1986.
ARNHEIM Rudolf . Arte e
Percepção Visual: uma psicologia da visão criadora. São Paulo: Pioneira, 2005.
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